Fio e luz: Apontamentos dispersos sobre um labirinto
Aline Magalhães Pinto

As grandes palavras de outrora, quando
Acontecer não era ainda visível, não são para nós.
Quem fala de vitórias? Suportar é tudo.
R. M. Rilke, Réquiem para Wolf, conde Von Kalckreuth
Tradução de José Paulo Paes

A expressão “apontamentos” evoca um tipo de escrita que emerge de impressões despretensiosas a fim de traduzir uma sensação paradoxal que conjuga certa tensão e certa leveza. Esse texto busca, justamente, apontar índices de uma disposição de espírito despertada pela peça de teatro Labirinto.1

1. A peça retoma os mitos gregos envolvendo Teseu, Ariadne e o Minotauro e propõe, sob a forma de um ensaio teatral, trazer à tona a atualidade de suas questões. No palco, três atores se misturam a dispositivos e recursos dramatúrgicos heterogêneos e nos convocam a fazer parte da história.

2. Num processo de fusão, a metáfora do fio de Ariadne – aquela que nos recorda a demanda por um fio condutor que nos direcione e auxilie na tessitura de um laço entre o ontem e o hoje, entre nossas inquietações e alguma esperança -, abraça a metáfora da luz, - que remete a um elemento supremo e subjacente ao cosmos, à sua revelação, i.e, possibilidade de visão da verdade ou dos mistérios do mundo. Luz e fio se encontram e, todavia, a imagem dos feixes de luz não desvela, não orienta, nem mesmo indica nada. O enlace não proporciona uma visão clara e segura da estrada da vida. O que emerge daí é um labirinto.

3. Em cena, Labirinto põe em movimento uma série de imagens em que a luminosidade brinca com a escuridão da violência, do espaço em que apenas um gesto nos separa do caos. O jogo entre claro e escuro composto pelos fios luminosos assume a forma de uma luta indecisa contra o inevitável. A escuridão do palco não se fecha em si mesma. Ela parece refletir a espera pela luz, criando o efeito de um duplo esvaziamento: a dissolução da promessa de unidade de sentido empenhada pelo fio e a traição da luz que não mais indica a verdade. O feixe de luz embaralha o entendimento tanto quanto sua ausência, e esse jogo entre fio de luz e suas sombras é a própria imagem da ausência de saída do labirinto. Destino que inverte a direção do mito, e que demanda que se faça a leitura da situação do mundo a partir dessa inversão. O tema se constrói, portanto, ao redor de um esfacelamento como consequência de um mal sem justificativa e, igualmente, sem reparação.

4. Não se trata, contudo, de diagnosticar mais uma vez o mal no mundo. Ultrapassando o que seria uma inocência, a onipresença do mal é contraposta ao cansaço, à dúvida, ao esmorecimento da vontade, à impotência, à covardia. A ordem moral claudica, na medida em que o mal inominável encontra como contraste não muito mais que vícios e pequenas maldades. Perplexidade de um sentido sempre a preencher, o labirinto nos mostra que a penumbra não esconde, em suas sombras, nenhuma promessa. A obstrução simbólica da expectativa ao redor da metáfora fio-luz se desdobra sobrepondo duas imagens complementares: a falta de saída do labirinto, a impossibilidade de pagamento da dívida.

5. A encenação engatilha uma cadeia metafórica – luz, fio, labirinto, dívida –, que opera de modo negativo: a luz que se entrega como névoa; o fio que se oferece como invencível embaraço; a dívida, encargo impagável, se apresenta como omissão e delito.

A força desse labirinto se sustenta como intransitividade e não comunicação.

Você choraria por mim? Contaria a minha história? Eu não tenho história.
Dizem que vão me ajudar.
Para eu ter fé na humanidade.
Para eu não perder a esperança.

Eles desapareceram. Eu não. Eu continuo aqui.
Você está me vendo?
Está ouvindo as minhas vozes?
Não está ouvindo?

6. A configuração intransitiva da cadeia de imagens impõe um duplo fracasso: i) do recurso lógico indutivo de mapeamento e esgotamento das possibilidades dadas por um problema ou quebra-cabeça; ii) do recurso narrativo calcado na força da ação. A dimensão dupla do malogro está intimamente relacionada à sincronia que predomina sobre a sucessão temporal na montagem dos planos da peça. À face da irrealização dos sentidos dispostos pelas metáforas da luz e do fio, a temporalidade se deixa espacializar, convertendo a sequência das cenas em um quadro composto de pequenos estilhaços – que insistem em fazer sentido.

A ligação assim estabelecida entre luz, fio, labirinto e dívida engendra, portanto, o desmonte da narrativa, deflagrando também suas consequências. Aos olhos dos espectadores emerge um afastamento entre corpo, voz e gesto que circulam, insubordinados, de forma a inviabilizar a aderência de sentimentos, emoções, atributos e peculiaridades a um ou outro personagem. Os personagens parecem se projetar como desvios de si mesmos. Mesmo nas lembranças do que os levou até ali, mesmo quando se aspira pela solução, pela saída, pelos novos ou outros tempos; mesmo no compartilhar de uma jornada comum; mesmo no ódio, no nojo ou no tédio em relação ao que se apresenta; a ligação metafórica consumada pela impossibilidade determina pela força a impotência daquilo que é humano. Isso é, o descentramento que impera sobre o fio narrativo atua igualmente sobre os personagens, uma vez que cada ação se desfigura em seu campo de influência. Egeu reina sobre o nada, Teseu não é herói, Ariadne não cumpre sua sina. Não obstante, o Minotauro continua, em sua temeridade.

7. Nas cenas, crises que se superpõem à crise, dos Gregos Antigos, da Grécia, do Velho e do Novo Mundo, da democracia, das esquerdas, das Instituições, dos Direitos, dos Sonhos. Resta ao olhar contemplar o colapso e confinamento – uma vez que não é somente a saída que está emperrada senão que a busca se encontra, de antemão, condenada ao fracasso: a dívida é impagável.

8. A montagem confere a um combate agonístico um espaço organizado sem extremidades. Na teia de uma história que não será contada, ergue-se um tratamento ou arranjo que encena uma luta silenciosa entre forças descentradas – o que determina o abandono da chave moral e nos condiciona a não procurar por um bem contra o mal. Há o mal e tudo sucumbe à sua voracidade. O Minotauro configura essa ânsia que tudo engole, pervertendo as mais íntimas expectativas, frustrando e interrompendo a realização simbólica das metáforas da luz e do fio – que seriam as armas para se pagar a dívida e sair do labirinto. A força do inominável se impõe justamente porque aquilo que a confirma coincide com aquilo que a põe em questão. Ela é absoluta. Frente a esse abismo, não há descontinuidade entre o insignificante e o fundamental: tudo se deve, todos devem, tudo será descontado – sem recompensa. E ainda assim, permanece-se endividado. A força se impõe sobre o labirinto, o impede de ponderar sobre si mesmo. Torna-o ocluso, um oximoro.

Mas aí, onde o nada encontra o tudo, uma reviravolta: o gozo – representado pelo canto e gesto feminino – aparece como uma espécie de sobra desse processo de combustão. Somente gozar responde e resiste à hostilidade temerária da força do Minotauro. Em sua hesitação, o canto desafia contornando o inominável, entre a gozação e o orgasmo. Se o gozo não redime, tampouco sucumbe. Ele persiste.

* Aline Magalhães Pinto é pos-doutoranda em literatura comparada na PUC-RIO.
1 Esteve em cartaz no Teatro Oi Futuro Flamengo, no Rio de Janeiro, entre 27/11/2015 e 31/01/2016. Direção: Daniela Amorim. Elenco: Alcemar Vieira, Otto Jr e Paula Calaes. Texto: Alexandre Costa e Patrick Pessoa.