Comentário sobre a esperança em O homem unidimensional, de Herbert Marcuse
Imaculada Kangussu

Em One-Dimensional Man, publicado em 1964, Marcuse apresenta as mudanças sociais como transformadoras do pensamento, do comportamento e, sobretudo, da visão de mundo dos indivíduos. Em suas palavras, “uma falta de liberdade confortável, suave, razoável e democrática prevalece na civilização industrial avançada”.1 A crescente produtividade tecnológica tornava a vida menos penosa e mais longa. E ainda permitia que algumas das pulsões humanas anteriormente destinadas à sublimação fossem realizadas imediatamente, fato por ele denominado de “dessublimação repressiva”. Repressiva na medida em que, livre para realizar suas pulsões, os indivíduos acomodam-se mais facilmente ao que lhes é oferecido. Acontece o que Marcuse chama de “a conquista da consciência infeliz”.2 Diante desse fato, qualquer protesto contra o estado de coisas existente parecia, em meados da década de 1960, condenado ao fracasso e o ser humano à unidimensionalidade representada pela aceitação do existente.

Marcuse, entretanto, mesmo diante da aparente hegemonia do sistema em curso, mantém esperanças relativas à transformação ao observar que:

Contudo, por baixo da base popular conservadora, encontra-se o substrato dos párias e outsiders, dos explorados e perseguidos de outras raças e de outras cores, dos desempregados e dos não empregáveis. Eles existem fora do processo democrático, suas vidas são a mais imediata e mais real necessidade de acabar com as condições e as instituições intoleráveis. Assim, sua oposição é revolucionária mesmo se a suas consciências não o forem. Sua oposição atinge o sistema de fora e, por isso, não se curva a ele; é uma força elementar que viola as regras do jogo e, ao fazê, revela-o como trapaça. Quando eles reúnem-se e saem às ruas, sem armas, sem proteção para reivindicar os mais primitivos direitos civis, sabem que enfrentarão cães, pedras e bombas, cadeia, campos de concentração e até a morte. Sua força está por trás de toda manifestação política pelas vítimas da lei e da ordem. O fato de eles começarem a se recusar a jogar o jogo pode ser o fato que marca o início do fim de um período.3

O filósofo observa que nada indica que será um final feliz. A única possibilidade, considera, é que os extremos possam se encontrar: “a força mais explorada” e “a consciência mais avançada”, i.e, os excluídos do processo social e os intelectuais. E, ainda que isso seja apenas uma possibilidade, Marcuse adverte que a teoria crítica permanece negativa e termina sua obra com as seguintes palavras:

A teoria crítica não possui conceito algum capaz de preencher a lacuna entre o presente e o futuro, não oferecendo promessa alguma e não ostentando êxito algum, permanece negativa. Assim deseja continuar leal àqueles que, sem esperança, deram e dão sua vida à Grande Recusa. No início da era fascista Walter Benjamin escreveu: Nur um der Hoffnungslosen willen ist uns die Hoffnung gegeben. Somente para os desesperados é que nos foi dada a esperança.4

O que o filósofo não revela é que a frase benjaminiana encontra-se no ensaio sobre “As afinidades eletivas, de Goethe”, e conforme observa Löwy (até onde sei, o único a mencionar esse fato), “Marcuse lhe dá uma tradução diretamente política”.5

Em “As afinidades eletivas, de Goethe” 6, Benjamin lida com a ligação entre o que ele denomina “teor de verdade” e “teor material” presentes nesta obra. O filósofo apresenta essa ligação como necessária na medida em que o teor de verdade precisa aparecer no mundo material para revelar-se. Os dois não são idênticos, pois, se o fossem, o conhecimento imediato seria possível. O teor material é explícito, o teor de verdade é oculto e pressupõe o trabalho de revelação.

Goethe publicou as Afinidades eletivas (Die Wahlverwandtschaften) em 1809. O título é um termo científico, utilizado na química antiga, para descrever a tendência das substâncias químicas para combinarem-se com umas e não com outras. A expressão “afinidades eletivas” foi amplamente usada, figurativamente, como metáfora das paixões humanas.7 Seu sentido é ambíguo: se na ciência diz respeito a uma reação química natural e inevitável, quando aplicada às relações humanas pode implicar liberdade de escolha, eleição, opção (Wahl).

No início da obra, Goethe apresenta-nos um nobre casal, Charlotte e Eduard (“assim denominaremos um rico barão em plena virilidade”8), vivendo tranquilamente no campo, em uma propriedade que se dedicam a embelezar. A trama começa quando Eduard pede permissão a Charlotte para convidar um amigo de infância, o Capitão Otto, a passar algum tempo com eles e ajudá-los na reforma de suas terras. Depois de recusar a proposta e afirmar “que este projeto contraria meus sentimentos e que não pressinto nada de bom nisso”9, Charlotte deixa-se convencer e aceita a ideia desde que Eduard permita-lhe convidar Ottilie, uma jovem órfã, filha de sua melhor amiga, para também ir viver com eles.

Em As afinidades eletivas, a decisão de trazer o Capitão Otto e Ottilie é descrita como um experimento, a casa e os jardins como a retorta na qual os elementos humanos são colocados juntos, e o leitor observa como reagem. Conforme Charlotte diz a Eduard:

Todos os empreendimentos desse tipo são arriscados. Ninguém pode prever o que resultará deles. Essas novas circunstâncias podem gerar felicidade ou infelicidade, sem que possamos atribuí-las a nosso mérito ou a nossa culpa. Não me sinto suficientemente forte para contrariá-lo por mais tempo. Façamos a experiência!10

A metáfora química é apresentada na novela pelo Capitão Otto: “Aquelas naturezas que, ao se encontrarem, se ligam de imediato, determinando-se mutuamente, chamam-nas ‘afins’.”11 O convidado explica ao casal que, no mundo da química, algumas substâncias ao entrarem em contato mútuo revelam afinidades entre os elementos que as compõem, estes então abandonam os antigos elementos a que estavam ligados na composição da substância original, ligam-se ao elemento afim presente na outra substância e, com isso, criam novas substâncias. “Ocorre uma desagregação e uma nova combinação, o que nos autoriza a aplicar a expressão ‘afinidade eletiva’, pois realmente parece que se preferiu uma relação à outra, que se elegeu uma em detrimento da outra”.12 O Capitão esclarece o movimento – e Eduard aplica-o explicitamente às relações humanas:

Imaginem um A intimamente ligado a um B e incapaz de se separar dele, nem pela força; suponham um C que esteja na mesma situação com um D; coloquem então os dois pares em contato; A atirar-se-á para D, e C para B, sem que se possa afirmar quem abandonou quem e uniu-se ao outro primeiro.
– Pois é! – interveio Eduard - até vermos tudo isso com os próprios olhos, vamos considerar essa fórmula como uma alegoria, da qual podemos tirar ensinamentos para uso imediato. Você, Charlotte, representa o A, e eu o seu B, visto que estou ligado a você e a sigo como o B ao A. O C é evidentemente o Capitão, que agora está de certo modo me afastando de você. Bem, para que não fique na incerteza, é justo que se procure um D para você, e esse será sem dúvida a amável senhorita Ottilie.13

Entretanto, as afinidades serão outras. O que vai acontecer é a paixão de Eduard pela beleza de Ottilie. Nas palavras de Benjamin, “a aparência da beleza encontra-se no centro da história [...] a crença na beleza de Ottilie é a condição fundamental para o envolvimento com o romance”.14 Nas palavras de Goethe, “a beleza é em toda parte um hóspede bem recebido”.15 Eduardo fica enfeitiçado pela bela Ottilie, ela o ama, Charlotte e o Capitão sentem-se mutuamente atraídos e resistem. Alegoricamente, conforme já se observou, Eduardo é paixão, Ottilie é amor, Charlotte é razão, o Capitão Otto é ethos, a opinião pública.16

Marcuse considera que a força dessa obra reside no fato de, mesmo profundamente atraídos, os personagens manterem seus sentimentos sob pressão ao invés de dar-lhes uma imediata expressão sexual. As afinidades eletivas são determinadas pelo compromisso erótico, julga o filósofo,

consistentemente, a sexualidade aparece em uma forma refletida, “mediada” e altamente sublimada – mas, nessa forma, é absoluta, descomprometida, incondicional. O domínio de Eros é, desde o início, o domínio de Thanathos. Realização é destruição, não em um sentido moral ou sociológico, mas ontológico. Está para além de bem e mal, além da moralidade social e, assim, permanece além do alcance do Princípio de Realidade estabelecido, que Eros recusa e explode.17

O único ato sexual que acontece nas Afinidades eletivas ocorre em uma noite quando Eduard bate na porta do quarto de Charlotte e ela abre. “Fiz a promessa de beijar o seu sapato essa noite”, ele diz, tentando explicar sua inesperada visita. Ela deixa o marido entrar e este “maliciosamente”, escreve Goethe, apaga a vela.

Na obscuridade, porém, as inclinações interiores e as fantasias afirmaram seus direitos sobre a realidade; era Ottilie quem Eduard estreitava em seus braços, e na alma de Charlotte pairava a imagem do Capitão, ora longe, ora mais perto, e, desse modo singular, o presente e o ausente entrelaçaram-se com encanto e voluptuosidade.18

Conforme observa Benjamin, “a turbulência da sexualidade” atira nos braços um do outro os já distanciados esposos, “prolongando uma união na qual marido e esposa teriam de perder um ao outro”.19

Se, no início de As afinidades eletivas, parece que o antigo casal vai se separar e novos pares serão formados, depois dessa noite, em que Charlotte engravida, ela decide ser mais fiel aos fatos do que aos sentimentos e permanecer ligada a Eduard, cujo pedido de divórcio é por ela recusado nos seguintes termos:

Você ainda se recorda daquela noite em que, como amante aventureiro, visitou a sua esposa, atraindo-a irresistivelmente e enlaçando-a em seus braços como uma amante. Vamos venerar, nessa estranha casualidade, uma providência divina, restabelecendo um novo laço entre nós, no instante em que nossa felicidade ameaça ruir e desaparecer.
Seria difícil descrever o que se passou na alma de Eduard a partir desse momento. Em situações embaraçosas, os velhos hábitos e inclinações ressurgem para matar o tempo e preencher a vida [...] Eduard desejou ardentemente o perigo externo para contrabalançar o interno.20

Eduard decide ir para a guerra “e buscar a morte não como alguém que está fora de seus sentidos, mas como alguém que espera sobreviver”, escreve Benjamin; e enquanto ele está fora, “Charlotte dá à luz uma criança nascida de uma mentira. Um sinal disso é que ela se parece com Ottilie e com o Capitão – e está condenada à morte”.21

Quando Eduard retorna, coberto de condecorações, a primeira pessoa que ele encontra é Ottilie com o filho dele no colo. O encontro é apaixonado, ambos imaginam ser possível, finalmente, ficarem juntos. Ao se abraçarem, “a esperança passou sobre as suas cabeças como uma estrela cadente. Supunham, acreditavam que se pertenciam e pela primeira vez trocaram beijos ardentes, voluptuosos; separaram-se dolorosa e violentamente”.22

Nas Afinidades eletivas, a esperança surge fugaz, nas palavras de Goethe, “como uma estrela cadente”, e Benjamin considera que “apenas esse sentimento de esperança pode realizar o sentido do acontecimento – assim como Dante assume, em sua própria pessoa, o desespero dos amantes, quando, depois das palavras de Francesca de Rimini, ele cai, ‘como um cadáver cai’.”23 Trata-se de uma referência a uma passagem da Divina comédia, na qual, depois de ouvir a história do adultério de Francesca e sua confissão de preferir viver eternamente condenada ao inferno com seu amante Paolo, do que no céu sem ele, Dante não resiste “e caddi, come corpo morto cade”.24 Também a união entre Eduard e Ottilie está condenada: ao voltar apressada para casa depois do encontro passional, Ottilie deixa o bebê cair no lago causando-lhe a morte. Culpada, nunca mais sai do quarto e morre de inanição.

Para amantes malsucedidos, “a esperança justifica a aparência de reconciliação”, pensa Benjamin, “é permitido desejar a aparência de reconciliação – sem dúvida, ela precisa ser desejada: é ela apenas o lar da esperança mais extrema”.25 Quer dizer, Benjamin preserva a forma do desejo, seu aparecer e sua aparência, ainda que (e sobretudo quando) este parece condenado ao fracasso. Quando a aparência é percebida como a única forma de o desejo encontrar expressão.

No diário de Ottilie, pode-se ler: “poder descansar um dia ao lado de quem se ama é a esperança mais agradável que uma pessoa pode nutrir, se alguma vez pensar no além da vida”.26 Eduard e Ottilie preferem morrer a viver separados, o conteúdo de verdade aparece no mundo material como recusa, negação a aceitar o que é dado. Eles recusam a situação existente, mesmo sem esperança. A realidade lhes é tão insuportável quanto o é para o mencionado “substrato dos párias e outsiders, dos explorados e perseguidos de outras raças e de outras cores, dos desempregados e dos não empregáveis”.27 Marcuse coloca-os juntos ao considerar que “nas exigências do pensamento e na loucura do amor está a recusa destruidora dos estilos de vida estabelecidos”.28

Nos protestos dos ativistas contemporâneos pode-se perceber a expressão de semelhante sentimento, i.e, de que a realidade tornou-se tão insuportável que recusá-la torna-se necessário, mesmo que sem esperanças. A única saída parece ser a expressão da recusa, como podemos ver, por exemplo, nas manifestações contra a Copa do Mundo, no Brasil, e no movimento Occupy Wall Street: é claro que nunca passou pela cabeça de ninguém que a Copa não seria realizada ou que ocupar a Liberty Square significaria o colapso do mercado financeiro. O que fica evidente é a expressão da recusa ao existente. E diante dessas performances, sem esperanças visíveis no cenário imediato, vale a frase citada na abertura do presente texto, que interrompo aqui, com as palavras de Marcuse:

É uma luta por você, por nós, quero pensar, que não podemos mais tolerar, que ficamos doentes do estômago ao ver a mais rica sociedade do mundo viver em uma economia de morte, obsolescência planejada e poluição que nós não podemos mais tolerar. E essa intolerância, essa abençoada intolerância, espero, atravessa o chamado abismo de gerações, pois, embora eu seja um pouco mais velho que vocês, para mim é tão intolerável quanto o é para vocês. Nisso, também, estamos no mesmo barco. 29

* Imaculada Kangussu é professora do Departamento de Filosofia da UFOP.
1 MARCUSE, H. One-Dimensional Man. Studies in the Ideology of Advanced Industrial Society. London: Routledge, 1991, p. 1. No Brasil, o livro foi traduzido como A ideologia da sociedade industrial. Tradução de Giasone Rebuá. Rio de Janeiro: Zahar, 1969.
2 Ibidem, p. 69. “A conquista da consciência infeliz: dessublimação repressiva” é o título do terceiro capítulo de One-Dimensional Man.
3 Ibidem, pp. 256-257.
4 Ibidem, p. 257.
5 LOWY, M. “Under the Star of Romanticism: Walter Benjamin and Herbert Marcuse”. In: xBLECHMAN, M. (org.). Revolutionary Romanticism. A Drunken Boat Anthology. San Francisco: City Lights Books, 1999, p. 207.
6 O ensaio “Goethes Wahlverwandtschaften” foi publicado em 1924, na Neue Deutsche Beiträge, organizada por Hugo von Hofmannsthal.
7 O termo Wahlverwandtschaften apareceu em alemão pela primeira vez em 1785, na tradução da obra do químico sueco Torbern Olof Bergman, De attactionibus electivis (1775). Cf. MEYER, A. “Prefácio”. In: GOETHE, J. W. v. Afinidades eletivas. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007, p. 11. No final do século dezenove, Max Weber, que leu a obra de Goethe, usou a expressão “afinidades eletivas” ao descrever a correspondência entre alguns aspectos do capitalismo com a ética protestante.
8 GOETHE, J. W. v. As afinidades eletivas. Tradução de Erlon José Paschoal. São Paulo: Nova Alexandria, 2008.
9 Ibidem, p. 25.
10 Ibidem, p. 32.
11 Ibidem, p. 45.
12 Ibidem, p. 46.
13 Ibidem, p. 47.
14 BENJAMIN, W. “Goethe’s Elective Affinities” , p. 338. Disponível através do link: <http://pt.scribd.com/doc/2909355/Walter-Benjamin-Goethes-Elective-Affinities>. Acesso em 26.05.2014.
15 Ibidem, p. 51.
16 Cf. SHERMAN, C. K. “Analysis at Goethe’s Elective Affinities”. In: The Journal of Speculative Philosophy, v. 19, n. 3 (July, 1985), p. 312.
17 MARCUSE, H. Op. cit., p. 77.
18 GOETHE, J. W. v. Op. cit., p. 82.
19 BENJAMIN, w. Op. cit., p. 335.
20 GOETHE, J. W. v. Op. cit., p. 111.
21 BENJAMIN, W. Op. cit., p. 307.
22 GOETHE, J. W. v. Op. cit., p. 189.
23 BENJAMIN, W. Op. cit., p. 355.
24 DANTE ALIGHIERI. La Divina Commedia. Bergamo: Fabbri Editori, 1997. “Inferno”, Canto V, verso 141, p. 65.
25 BENJAMIN, W. Op. cit., p. 355.
26 GOETHE, J. W. v. Op. cit., p. 151.
27 Cf. nota 3.
28 MARCUSE, H. Op. cit., p. 127
29 MARCUSE, H.; DAVIS, A. “Talks by Angela Davis and Herbert Marcuse”. New York Public Library, microfilm ZT-992, 1969, 1. Trata-se do discurso proferido em 24 de outubro de 1969, na Lower Plaza da University of California.