Niemeyer e as ideias estéticas
Vladimir Vieira

O artigo “Estética da arquitetura, Kant e Niemeyer: aproximações em investigação”, de Miguel Gally, propõe-se a desenvolver uma leitura da obra de Oscar Niemeyer a partir de princípios da estética kantiana expostos em sua Crítica da faculdade de julgar. Como reconhece o próprio autor, trata-se de uma investigação à qual se interpõem certos desafios. Em primeiro lugar, a produção do arquiteto é muito extensa e variada, o que torna bastante difícil qualquer tentativa de abordá-la sistematicamente: “falar desse conjunto com seriedade não é uma tarefa fácil e dificilmente encontrará respaldo unânime uma defesa ou acusação de sua (não) unidade, se levadas ao extremo seja uma única vertente teórica seja uma divisão radical da sua obra”. Em segundo lugar, o texto de Kant sofre do problema inverso: há poucas e discretas referências à arquitetura na terceira crítica, de modo que “precisamos, antes de qualquer estratégia, recortar a produção do primeiro e explorar ao máximo, no segundo, as noções mais gerais que estão vinculadas àquele breve trecho que trata da arquitetura relacionando-o com sua estética crítica do belo e da arte em geral [...]”.

O elemento central explorado por Gally que permite superar essas dificuldades consiste na noção de “idéia estética”, que Kant desenvolve nos parágrafos finais da “Analítica”, quando procurar compreender o belo artístico e aquele que cria tais objetos, o gênio. Segundo o filósofo, trata-se de uma “representação da faculdade da imaginação que dá muito a pensar sem que, entretanto, qualquer pensamento determinado, i.e., conceito, lhe seja completamente adequado [...]”.1 Aplicada à arquitetura, essa noção sugeriria que as obras se deixam pensar segundo as múltiplas relações que elas entretêm com o espaço público, entendido aqui, como sugere Gally, no sentido de que elas “não podem ser desvinculadas do seu entorno, de sua vinculação com outras obras arquitetônicas e com a cidade, de sua vinculação com a natureza circundante e com as pessoas que a utilizam ou que por elas passam”.

A produção de Niemeyer é aquela onde o autor reconhece a validade dessa aplicação. O artigo se detém, especialmente, sobre o Museu Nacional de Brasília (2006) e sobre a Torre de TV Digital (2008-2012). Por sua disposição no espaço público, tais obras suscitariam diversas possibilidades diferentes de responder à questão “o que é isso?”, sem que nenhuma delas seja capaz de dar conta integralmente daquilo que o sujeito tem diante de si. A criticada inadequação da primeira à finalidade para que foi projetada, por exemplo, seria precisamente aquilo que permitiria pensar no “passeio que aquela bola gigante branca pode ter percorrido na Esplanada esbarrando nos outros monumentos até cair no buraco onde se encontra”, ou se perguntar “o que a lua faz no chão”.

Esse esforço de Gally no sentido de atualizar a estética de Kant, consistente com a orientação de suas pesquisas nos últimos anos, é uma importante contribuição para a recepção contemporânea do filósofo. São conhecidas as dificuldades que se apresentam às tentativas de empregar conceitos da terceira crítica para a compreensão da arte de nossos dias. A relevância da abordagem proposta em “Estética da arquitetura” se revela com clareza ainda maior na medida em que a categoria privilegiada para a leitura da produção de Niemeyer é o belo, e não o sublime, o qual teve um destino mais feliz na tradição estética como chave para a interpretação de pinturas, performances e outras modalidades artísticas da segunda metade do século XX.

Duas questões, suscitadas pela leitura do texto, despertaram particularmente meu interesse. A primeira diz respeito ao papel da imaginação na estética kantiana. Em suas análises, Gally insiste sobre a propriedade que possui uma idéia estética de “dar muito a pensar”; nas palavras do autor, ela “permite que pensemos ser a forma daquilo que intuímos com a imaginação (associada à sensibilidade) muitas coisas determinadas, embora nenhuma delas possa esgotar a qual conceito tal forma efetivamente se conecta, sob pena de se perder ou de se interromper a experiência estética”.

Ora, Gally tem em mente que uma idéia estética produz muitas representações determinadas, sem que nenhuma em particular seja plenamente adequada ao objeto que temos diante de nós. Essa formulação me parece incongruente em relação àquela expressa na introdução, onde o fenômeno belo é caracterizado antes por sua indeterminação, ou seja, pela incompatibilidade entre aquilo que temos diante de nós e qualquer conceito determinado. Parece-me, desse modo, que Kant atribui duas espécies diferentes de síntese à imaginação para a experiência da beleza: uma para o caso dos objetos naturais, outra para a arte.

Gally parece ter consciência desse problema, pois sugere, em seu texto, que “no caso da natureza bela, por não se saber se há alguma intenção, a imaginação precisa da faculdade de entendimento em estado de mais atenção para então procurar a que fim tal forma pode se relacionar”. Seria interessante compreender de modo mais profundo o que significa essa “maior atenção” do entendimento no caso do belo natural. Talvez seja possível assim ganhar maior clareza sobre o fato de que aquilo que produz o jogo livre, responsável pelo sentimento de prazer que está na base dos nossos juízos estéticos, permanece aqui indeterminado, ao passo que, no caso da arte, parece antes “sobredeterminado”.

Uma segunda questão diz respeito ao fato de que, em seu artigo, Gally faz poucas referências ao terceiro momento da “Analítica do belo”, que explora a noção de finalidade e sua aplicação ao domínio da estética. Nessas passagens, especialmente no §16, que trata da “beleza aderente” na terceira crítica, Kant faz referência explícita à arquitetura quando menciona o exemplo de uma igreja.2 O filósofo tem em mente que o julgamento da beleza não é totalmente livre no caso de certos objetos, uma vez que ele poderia ter de levar em consideração os fins objetivos segundo os quais eles são construídos. Nem toda forma, por exemplo, poderia ser considerada bela no que diz respeito a um edifício que tem uma finalidade determinada.

A pertinência dessas passagens para a discussão proposta por Gally é evidente, visto que o próprio autor considera, em sua abordagem do Museu Nacional de Brasília, a relação entre a obra arquitetônica de Niemeyer e os diferentes usos a que ela seria destinada. A omissão de uma referência mais direta à noção de beleza aderente aponta, na verdade, para uma incongruência na letra kantiana, pois a reivindicação de liberdade no julgar estético não me parece inteiramente compatível com o caso da arquitetura, onde a fabricação dos objetos tem em vista certos fins determinados.

Quero dizer, desse modo, que a interpretação da arquitetura a partir da noção de idéia estética, facultada pelos trechos da terceira crítica explorados por Gally, não conforma-se bem ao que o filósofo diz no §16. Explorar essa dificuldade da letra kantiana é, assim, uma tarefa a que o autor, em seu esforço para compreender essa forma de arte a partir de princípios da doutrina exposta na terceira crítica, poderia se dedicar em desdobramentos futuros de sua pesquisa.

Resta, das instigantes considerações de Gally, uma provocação. Nas passagens que tratam da questão do gênio – que é, precisamente, aquele capaz de dotar seus produtos de idéias estéticas – Kant ressalta o caráter “inconsciente” de sua criação. O gênio, sugere o filósofo no §46, não é capaz de explicar como realiza aquilo que realiza:

[...] ele próprio não pode descrever ou mostrar cientificamente como realiza [zu Stande bringen] o seu produto, mas antes dá a regra como natureza; e, portanto, o criador de um produto que ele deve a seu gênio não sabe, ele mesmo, como se encontram nele as idéias para tal [...].3

A dificuldade que essas palavras colocam para a estratégia de aproximação proposta no artigo de Gally reside no fato de que, como o próprio autor reconhece, pensar a obra de Niemeyer envolve, frequentemente, “[...] considerações e reflexões muitas vezes carregadas de um pensamento reforçado por uma consciência histórica forte [...]”. A escolha de um universo de exemplos onde tal “consciência” se manifesta com menos intensidade faculta a leitura desenvolvida em “Estética da arquitetura”, permitindo assim iluminar certos aspectos da arquitetura de Niemeyer de que não se ocupam os seus intérpretes habituais. Por outro lado, caberia ainda perguntar como conciliar as exigências formais da estética kantiana com a ostensiva reflexão política e social que caracteriza a atuação do artista no espaço público brasileiro.

* Vladimir Vieira é professor do Departamento de Filosofia da UFF.
1 KANT, I. Kritik der Urteilskraft. In: Werksausgabe. Bd. X. Edição organizada por Wilhelm Weischedel. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1976, pp. 249-250.
2 Ibidem, p. 147.
3 Ibidem, pp. 242-243.