Lentes potentes e empoeiradas: violência e resistência em Bacurau
Bethania Assy
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio)
Rio de Janeiro (RJ)
Vera Karam de Chueiri
Universidade Federal do Paraná (UFPR)
Curitiba (PR)
ASSY, Bethania; CHUEIRI, Vera Karam de. “Lentes potentes e empoeiradas: violência e resistência em Bacurau”. Viso: Cadernos de estética aplicada, v. 14, n° 26 (jan-jun/2020), p. 80-106.
Aprovado: 11/06/2020 · Publicado: 04/07/2020
Lentes potentes e empoeiradas: violência e resistência em Bacurau

Este artigo é sobre Bacurau, filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Ele discute algumas de suas possíveis referências, como o movimento tropicalista, a literatura de Guimarães Rosa, o Cinema Novo de Glauber Rocha e a obra de arte de Helio Oiticica, a fim de enfatizar o encontro entre o primitivo e o popular, a tecnologia e a cultura de massa. Apesar da radicalidade das dimensões biopolítica e necropolítica e de seu desdobramento em uma espécie de necro-capitalismo, este artigo tem como objetivo propor algo mais sobre a violência infringida pela comunidade de Bacurau: primeiro, a idéia de violência literal ou imanente, principalmente ao lançar nova luz sobre a noção de violência divina de Benjamin; segundo, passando da violência imanente à ação e resistência. A resistência como um movimento extraordinário e comum, realizado individual ou coletivamente pela comunidade de Bacurau. Considerando que Bacurau não é apenas uma comunidade local no sertão do nordeste do Brasil, mas pode ser qualquer outra comunidade no globo, concluímos de maneira não conclusiva, com a noção de “devir índio” de Viveiros de Castro como aquilo que Bacurau nos incentiva a fazer.

Palavras-chave:
Bacurau; Tropicalismo; biopolítica; necropolítica; violência; resistência; Walter Benjamin; Tornar-se índio
Forceful and Dusty Magnifying Glasses: Violence and Resistance in Bacurau

This article is on Bacurau, a film by Kleber Mendonça Filho and Juliano Dornelles. It discusses some of its possible references such as Tropicalism movement, Guimarães Rosa’s literature, Glauber Rocha’s New Cinema and Helio Oiticica’s work of art in order to stress the encounter of the primitive and the popular, of technology and mass culture. Despite the radicality of biopolitical and necropolitical dimensions and their unfolding into a kind of necro-capitalism, this article aims at proposing something else concerning the violence infringed by Bacurau's community: first, the idea of  literal or immanent violence, mainly by throwing new light into Benjamin’s notion of divine violence; second, moving from immanent violence towards action and resistance. Resistance as an extraordinary and ordinary movement performed individually or collectively by Bacurau’s community. Considering that Bacurau is not just a local community in the Backlands of northeast Brazil but can be any other community in the Globe, we conclude in a non-conclusive manner taking Viveiros de Castro “Indian-becoming” as that which Bacurau encourages us to do.

Keywords:
Bacurau; Tropicalism; biopolitics; necropolitics; violence; resistance; Walter Benjamin; Indian-becoming