“E como melhor no fim trabalho perdido e silêncio”: A experiência histórica de Fim de Partida, de Samuel Beckett
Daniel Gilly
Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)
Guarulhos (SP)
GILLY, Daniel. “‘E como melhor no fim trabalho perdido e silêncio’: A experiência histórica de Fim de Partida, de Samuel Beckett”. Viso: Cadernos de estética aplicada, v. 13, n° 25 (jul-dez/2019), p. 66-90.
Aprovado: 09/11/2018 · Publicado: 30/12/2019
“E como melhor no fim trabalho perdido e silêncio”: A experiência histórica de Fim de Partida, de Samuel Beckett

O trabalho propõe uma análise da peça teatral Fim de Partida, do autor irlandês Samuel Beckett, a partir da perspectiva da inserção da obra de arte em seu contexto histórico-filosófico. Assim, proponho uma leitura da obra como uma resposta aos procedimentos técnicos da ordem social capitalista da época e à proximidade da destruição causada pela Segunda Guerra Mundial. Essas condições históricas não necessariamente serão desenvolvidas como um tema na produção artística de Beckett, mas se refletem em sua obra a partir da elaboração de técnicas dramatúrgicas e de um esforço linguístico de criação voltados para a expressão de uma ordem social e política nova, na qual muitos dos pressupostos dramatúrgicos legados pela tradição precisam ser contestados e reformulados. Assim, nas construções dialógicas novas, na ideia de natureza como história e como decadência, na deformação física e espiritual das personagens, na violência anônima e indizível que cerca todo o palco, etc, o que se tenta expressar é um novo estatuto da linguagem e da racionalidade que não pode mais se apresentar dentro das convenções de uma construção dramática tradicional. Neste artigo, pretendo apresentar as novas possibilidades de expressão de uma condição histórica da humanidade através da obra beckettiana, assim como as eventuais limitações de ação e criação que foram colocadas por ela.

Palavras-chave:
teatro; história; linguagem; natureza
“And How Better in the End Labour Lost and Silence”: The Historical Experience of Endgame, by Samuel Beckett

This work proposes an analysis of the play Endgame, by Irish author Samuel Beckett, from the perspective of the insertion of the work of art in its historical-philosophical context. I propose a reading of the work as a response to the technical procedures of capitalist social order and to the proximity of the destruction caused by the World War II. These historical conditions won’t necessarily be developed as a theme in Beckett’s artistic production, but are reflected in his work as an elaboration of dramaturgical techniques and a creative linguistic effort destined to the expression of a new political and social order, where most of the dramaturgical assumptions transmitted by tradition needed to be contested and reformulated. This way, in the new dialogical constructions, in the idea of nature as history and decay, in the physical and spiritual deformation of the characters, in the anonymous and unspeakable violence that surrounds the stage, etc, there is an attempt to express a new statute of language and rationality that no longer can be presented according to the conventions of a traditional dramatic construction. In this article, I propose to present the new expressive possibilities of humanity’s historical condition through the work of Beckett, as well as the eventual limits of action and creation brought by it.

Keywords:
theater; history; language; nature