É possível falar de uma estética platônica?
Luisa Buarque
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Rio de Janeiro (RJ)
BUARQUE, Luisa. “É possível falar de uma estética platônica?”. Viso: Cadernos de estética aplicada, v. 1, n° 1 (jan-abr/2007), p. 15-33.
Aprovado: 15/01/2007 · Publicado: 13/04/2007
É possível falar de uma estética platônica?

Considerando o termo ‘estética’ no sentido moderno de estudo filosófico do belo e da criação artística, pretendemos investigar em que medida é possível dar uma resposta positiva e em que medida é possível dar uma resposta negativa à questão acima. Ainda que a estética tenha nascido apenas no século XVIII, muitos enxergam em Platão – sobretudo nas discussões travadas na República acerca da pintura, da poesia e da mímesis em geral, assim como do seu papel na cidade ideal – um possível germe do que mais tarde viria a se tornar “estética”. Gostaríamos aqui de mostrar que, nas colocações sobre a mímesis encontradas na República, se há alguma estética, ela está muito mais a serviço das intenções pedagógicas do diálogo como um todo; submete-se, portanto, ao objetivo educativo de formação moral dos jovens. Há, entretanto, a nosso ver, no esquema genealógico do Timeu e na noção platônica do demiurgo, fortes traços de uma estética muito peculiar, que coloca a criação artística como modelo e fundamento da geração do cosmos, de modo que, ainda que não analise explicitamente a produção artística, ela revela muito de sua essência e é capaz de fundamentar boa parte do que se viria a desenvolver posteriormente sob o título de “estética”.

Palavras-chave:
Platão; estética; República; Timeu
Is It Possible to Refer to a “Platonic aesthetics”?

Starting out from the modern meaning of ‘aesthetics’ as a philosophical study about beauty and artistic creation, we wish to examine in which sense it is possible to give a positive answer and in which sense it is possible to give a negative answer to the question stated above. Albeit aesthetics, strictly speaking, only began in the eighteenth century, many scholars see in Plato’s work – especially in the discussions exposed in the Republic about painting, poetry and mimesis in general, as well as about its role in the ideal city – a starting point of what was later to become aesthetics. In this paper, we’ll try to show that, if there is any aesthetics in the statements about mimesis found in the Republic, this is rather for the sake of the pedagogic intentions of the dialogue taken as a whole; thus, it serves the educational goal of the moral development of the youth. Nevertheless, in the genealogical structure of the Timaeus and in the Platonic notion of the demiourgos, there are traces of a peculiar aesthetics, which views artistic creation as a model and basis for the generation of the cosmos. Consequently, although the dialogue does not explicitly examine artistic production, it reveals much of its essence and may in this sense be capable of grounding much of what would afterwards be developed under the heading of aesthetics.

Keywords:
Plato; aesthetics; Republic; Timaeus